17 de mar de 2009

Dica de Leitura

"Venho acompanhando o blog do Rob Gordon, desde sempre. Resolvi selecionar um texto pra vocês e indicar o blog como leitura obrigatória."


O Tempo Passa, o Tempo Voa...


O restaurante onde eu almoço, em Pinheiros, tem dois problemas graves. O primeiro é a mania do cozinheiro de bancar o artista, inventando nomes estranhos para os pratos mais comuns do mundo – qualquer dia eu falo disso aqui no blog. O outro é o serviço. Os garçons de lá não são internacionalmente conhecidos pela inteligência. Bom, vamos ser justos: a coisa melhorou de uns tempos para cá, quando começaram a contratar pessoas com um pouco menos de deficiência de fosfato no organismo para servir as mesas – um deles, especialmente, virou meu amigo porque também gosta de heavy metal e vem sempre se atualizar comigo sobre shows e discos novos.

Mas ainda sobraram uns garçons old school na equipe, que fazem questão de não olhar na sua direção quando você está chamando, e demoram uns cinco minutos para conseguir trazer uma lata de Coca Zero. Claro que, mais dia, menos dia, a seleção natural vai se encarregar deles, mas, até lá, eles vão continuar atrapalhando meu almoço sempre que um deles estiver atendendo minha mesa (e como eles fazem uma espécie de rodízio todos os dias, não adianta eu me sentar em outro lugar, acabaria virando loteria).

Desses garçons mais, digamos, tapados, um em especial consegue ser particularmente irritante. Às vezes, eu vou almoçar sozinho pelo único motivo de querer almoçar sozinho. Compro um jornal de esportes para ler enquanto como, e planejo passar uma hora ali, em silêncio, lendo, comendo e pensando na vida. Mas ele não deixa. Fica em pé, ao lado da mesa, lendo o jornal por cima do meu ombro. Eu mudo de posição, entro na frente dele, mas ele não se toca e continua lendo. Até a hora que eu me emputeço, coloco numa matéria sobre a semifinal do campeonato de vôlei feminino da Tailândia e deixo naquela página até ele ir embora.

Antes que pensem que sou grosso, se eu não fizer isso, às vezes ele insiste em comentar as notícias comigo. Eu estou comendo, e, de repente, ouço, ao meu lado:

– O Palmeiras ganhou?

Eu olho para ele com aquela cara de “se eu quisesse conversar, teria vindo almoçar com alguém”. Mas ele não consegue captar isso, é informação demais. Então, só me resta responder.

– Não.

– Mas tem uma matéria do Palmeiras aí.

– É um jornal de esportes. Tem uma matéria sobre o Palmeiras todo dia. Sobre o São Paulo também. Sobre o Corinthians também.

– Ah, então não ganhou?

– Não. Mesmo porque ele joga hoje. O jogo é daqui a oito horas. Aliás, a matéria é sobre isso.

– Ah.

Como não consigo encerrar a conversa, resolvo apelar para minha arma secreta.

– Você não consegue outra Coca para mim?

Aí ele se vê obrigado a ir buscar a porra da Coca e me deixa em paz. Na verdade, eu acabo nem tomando essa segunda Coca-Cola inteira, mas não me importo. Gosto de pensar que estou pagando R$ 2,00 por um almoço silencioso e não por uma lata de refrigerante. E assim vamos vivendo, eu e ele.

Mas ontem a coisa passou dos limites da cretinice.

Eu já estava no final do almoço, lendo as notícias sobre o Campeonato Carioca – que era a única coisa que ainda não tinha lido no jornal. Ele ali, em pé, ao lado da mesa. Eu já estava esperando o momento em que ele viria comentar algo sobre o Vasco. Eis que ele solta:

– É engraçado como o pessoal do Roupa Nova está velho.

Roupa Nova? Como assim?

Olhei o jornal de cima a baixo e não vi absolutamente nada sobre o Roupa Nova. Sem fazer movimentos bruscos para não assustá-lo, olhei ao redor procurando um CD do Roupa Nova nas mesas ao lado, ou um poster da banda na parede. Nada. Comecei a ouvir com mais atenção a música que estava tocando no restaurante. Não identifiquei o que era, mas não era Roupa Nova.

De onde diabos o Roupa Nova surgiu? Será que foi um pop-up que abriu no cérebro dele?

Não havia qualquer sinal de Roupa Nova ao meu redor. A única alternativa que restava era o fato de eu ter me transformado em alguém do Roupa Nova sem perceber. Peguei meu celular, levantei até a altura do rosto e olhei meu reflexo no visor.

Não, eu continuava sendo eu.

Só me restou fazer a minha melhor e mais caprichada cara de interrogação e olhar para ele. Foi o que eu fiz, mas o garçom continuou em silêncio, pois 1) ele não sabe reconhecer uma expressão de interrogação e 2) ele não considerou a hipótese de que a frase dele não se encaixava de forma alguma na realidade do planeta.

Assim, tive que apelar para a comunicação verbal. Mas fiz questão de continuar com minha cara de interrogação.

– O quê?

– O pessoal do Roupa Nova está muito velho.

– Ah, é?

Minha idéia era fingir interesse e, ao mesmo tempo, deixá-lo falar o que quisesse sobre o assunto. Desta forma, quem sabe, ele acabaria entregando alguma pista sobre os caminhos tortuosos que aquele pensamento percorreu pelo seu cérebro, evoluindo de uma simples “vaga idéia que não interessaria a ninguém” até chegar às suas cordas vocais na forma de um “comentário que valesse a pena ser dito em voz alta”. Infelizmente, não deu certo, porque tudo que ele respondeu foi:

– É.

Percebi que sutilezas não iriam funcionar. O negócio era entrar com os dois pés no peito e resolver logo aquilo.

– Só por curiosidade, porque diabos você está falando disso?

– Porque eles estão velhos.

– Não, porque você está falando ISSO? Não tem nada sobre o Roupa Nova aqui.

– Tem sim. Tem eles.

Ok. Calma. Como responder a isso?

– Hum?, foi tudo o que eu consegui.

– É. Eles estão aí no andar de baixo comendo. Eles sempre comem aqui.

– Ah.

– Não acredito que você não viu!

Por um momento, pensei em responder que se os caras da banda se sentassem na minha mesa e começassem a mexer na minha comida, eu não iria reconhecê-los, porque não faço a menor idéia de com o que alguém que pertence ao Roupa Nova se parece.

Por outro lado, caso ele fosse fã do grupo, esse é o tipo de comentário que poderia gerar atritos. O cara iria pegar bronca de mim, e, mais dia, menos dia, iria cuspir na minha Coca-Cola enquanto cantarolava freneticamente uma música do Roupa Nova na cozinha. Achei melhor sair pela tangente.

– Ah, é que eu estava lendo o jornal aqui.

Foi a sua vez de me olhar com cara de interrogação. Suspirei e expliquei:

– Eu fiquei olhando apenas o jornal e o meu prato. Dei algumas olhadas pela janela, mas só. Não olhei para as outras mesas.

– Ah, entendi. Mas eles estão velhos, viu?

– É. Acontece com todo mundo, respondi.

E acontece com todo mundo mesmo. Eu, por exemplo, estava envelhecendo uns cinco anos a cada frase que ele soltava.

– Igual ao Zezé di Camargo e Luciano.

(Interlúdio: porque algumas pessoas se referem às duplas sertanejas como uma pessoa só?)

– Eles também estão aqui?

– Não. Mas estão velhos.

– Ah.

– Algum tempo atrás, eu vi os dois na televisão sobre eles. Eles tinham 43 anos. Ontem, eles apareceram na televisão e já estão com 47.

– Nossa. Envelheceram quatro anos.

Aparentemente, ele não percebeu o sarcasmo e foi em frente:

– É, envelheceram muito. Já estão com 47 anos.

Seus olhos brilhavam e ele estava visivelmente empolgado em possuir essa informação. Aparentemente, ninguém mais sabia a idade da pessoa conhecida como “Zezé di Camargo e Luciano”, a não ser ele. E isso, pelo jeito, significava muito para ele.

Foi neste momento que meus neurônios entraram num processo de transe. Isso acontece comigo às vezes. Eles começam a tocar tambores africanos ensurdecedores e a dançar freneticamente, implorando para eu sacanear com a pessoa. Só param quando eu atendo esse pedido. E se eu não fizer isso, eles começam a me ameaçar, gritando que se eu não fizer o que querem, eles irão me deixar cego quando eu estiver atravessando uma avenida.

Resumindo: eu não podia deixar isso passar em branco.

Dobrei o jornal, me levantei e coloquei minha carteira no bolso, me preparando para ir ao caixa pagar. Olhei para ele e perguntei:

– Nem parece que eles têm 47 anos...

– Não.

O barulho dos tambores aumentou.

– E outro dia mesmo, eles tinham 43?

– Isso. Eu vi na TV.

O barulho dos tambores começou a fazer meu crânio tremer. Os neurônios dançavam cada vez mais rápido.

– É... O tempo voa. Quem diria que eles já estão com 47 anos? Aposto que nem faz tanto tempo assim que você os viu na TV e eles estavam com 43 anos. Quanto tempo faz isso? Uns três anos? Quatro?

Subitamente, os tambores pararam. Os neurônios interromperam a dança e ficaram aguardando em silêncio. Eles não se moviam. Aliás, eles mal respiravam, como torcedores que aguardam pela cobrança de um pênalti, esperando o garçom terminar de fazer as contas e responder a minha pergunta.

– É... Por aí... Acho que faz uns três ou quatro anos, sim.

Meus neurônios explodiram de felicidade. Agora, eles não apenas tocavam os tambores e dançavam como, também, gritavam alucinadamente. Meus órgãos devem ter imaginado que uma final de Libertadores estava sendo disputada dentro do meu cérebro e que, aparentemente, o time da casa tinha feito um gol.

Segurei uma gargalhada, me despedi falando qualquer coisa sobre o tempo passar rápido demais e fui embora rapidamente, antes que ele fizesse a prova real da conta que tinha acabado de fazer. Desci as escadas e fui em direção ao caixa. No caminho, percorri o restaurante com os olhos.

De todas as mesas ocupadas, duas delas estavam ocupadas por grupos de pessoas que estavam entre os 50 e 60 anos. Ou seja, até agora não sei em qual delas o pessoal do Roupa Nova estava.

Mas meus neurônios estavam ocupando demais celebrando, e não se importaram com isso.

2 comentários:

Rodrigo disse...

hahahahahahahahaha

chorei de rir... humor na medida perfeita!!

Anônimo disse...

Obrigado por Blog intiresny

 
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